Este blog dedica-se a postagens de valor, tudo o que realmente importa ao desenvolvimento e realização das pessoas como a obra preferida da criação; ou do criador. Arte, política, ciência,e também coisas comuns e correntes que imprimem alegria e beleza à vida fazendo do que chamamos de rotina a grande aventura de viver. Sejam bem vindos de verdade.



terça-feira, 14 de junho de 2011

A estória da história

Isto foi lá pelos idos anos 60, precisamente 1966, pois eu contava então com 10 anos e cursava o 4º ano primário da nossa boa e austera Escola 12 de Dezembro. São muitos números, mas a realidade era forte naquelas priscas eras. Um mundo de milícias, mudanças, conflitos e glamour.
Não era um dia especial mas já me soava fatídico pois mamãe havia sido chamada na escola, gabinete de Dona Carmosina, a diretora. 
Depois de passado o horário de entrada, todos devidamente acomodados em sala de aula foi difícil  conseguir uma desesperada desculpa para me ausentar da sala, visto que a entrevista se daria logo depois. Tinha que dar um jeitinho de me acomodar em algum canto escondido de onde pudesse escutar o que se passava. O mais estranho é que não me lembrava de haver feito nada grave naquela semana, só o comum de sempre, falta de atenção, conversa com a turminha de trás, nem mesmo um "para-casa" incompleto.
Às duas horas mamãe chegou, estacionou nosso "Simca Chambord" e entrou muito linda, com seu conjuntinho de "Banlon" e coque. Veio também Dona Margarida a professora do 4º e uma espécie de coordenadora que mais parecia um sargento. Elas tinham um ar solene que prenunciava algo catastrófico. Com minhas tranças atadas de cada lado e o coração insistindo em disparar, consegui achar um lugar junto a estratégica gretinha da porta, o que me facultava vê-las e ouvi-las. Dona Carmosina parecia indignada e segurava nervosamente em uma das mãos seu surrado lenço do qual ela nunca se separava e na outra uma folha de papel. Já Dona Margarida era uma criatura toda em tons de vermelho; nesse dia a cor lhe assentava com destaque.
Dona Carmosina então lançou a mamãe os preâmbulos da queixa crime. "Ivone, essa menina não dá a menor atenção às aulas de catecismo!" Eu, ali do cantinho, pensei comigo "estou perdida", muita bola não dei mesmo e do assunto só sabia algumas frases que escutei enquanto fantasiava minhas próprias histórias. Será que era tão grave? E era. 
Dona Margarida adiantou-se com sua vermelhidão e disse:­ 
- Pedimos aos alunos que escrevessem a composição sobre a história de Jesus e o que Jussara escreveu é uma verdadeira barbaridade!  Estamos realmente constrangidas...
Mamãe, um pouco abalada, mas sempre com seus aguçados sentidos, olhava de uma para a outra aguardando o âmago da catástrofe sem perder a tranqüilidade. Dona Carmosina ergueu o tal papel que afinal era minha composição sobre Jesus, entoou a voz e leu:
"Jesus Cristo era um cara subversivo. Cabeludo e subversivo".
Mamãe foi acometida de um ataque de riso que parecia um vulcão a irromper-lhe sem poder deter-se e tentava não transparecer. Tratou de simular uma comoção, mas a história continuou com novos parágrafos.
"Ele gostava de pregar, mas suas idéias de que todo mundo era igual, não agradavam ao governo e começavam a ficar perigosas". "Ele só gostava de andar com o povo, falar com o povo e seus amigos também eram cabeludos e do povo. Dizem que era carpinteiro e os amigos pescadores, cada um de um sindicato. Aí resolveram pegá-lo."
Nisto, pobre mamãe já não sabia se ria descaradamente ou fingia uma crise de nervos e eu já notava que minha situação em casa não seria tão grave. Mas no meu mundo, em que não escutei que a coisa toda se passava na Galiléia, fui dissertando de acordo com o que se passava à minha volta. Nesta época, morávamos a um quarteirão da Fafich (Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas) e eu assistia ao vivo e a cores a instalação da ditadura no Brasil. Papai era professor de História das Doutrinas Políticas o que fazia dele quase um cangaceiro. Ajudamos a carregar todos os livros dele para um puxadinho construído na casa antes. E os olhos das crianças não perdem nenhum detalhe. Assim continuou a leitura da minha nefasta composição.   
"Um dia,um cara da turma dele o delatou. Jesus então foi preso; levaram-no para o DOPS e ele apanhou muito e foi torturado"
- Torturado no DOPS, Ivone! Berrava dona Carmosina e dona Margarida em coro altíssono.
E eu gelada me perguntava onde mais um cara subversivo iria preso e torturado.
Me lembrava também que havia escutado algo sobre o Bom Samaritano mas não sabia o que tinha acontecido, só que ele estava caído, todo arrebentado e o alforje (essa palavra havia aprendido) foi levado. Mandei no chute e completei: "Um bom samaritano foi pego na estrada, bateram muito nele e levaram seu alforje que continha alguns livros perigosos inclusive de Marx". Isto só já era motivo suficiente para um cara aparecer arrebentado na estrada. 
A malfadada história continuava pelos caminhos sinuosos das minhas interpretações infantis do mundo enquanto mamãe, que já não tinha mais como conter-se, misturava lágrimas de riso travestidas de choro, alguns estertores e soluços. 
"Depois Jesus foi levado algemado para falar com o governador. Outra vez apanhou muito, foi torturado, mas não disse nada. Por mais que o governador insistisse, ele não falou nada. Então resolveram crucificá-lo."
Dona Carmosina fez uma pausa em sua indignação para retomar o fôlego; dona Margarida arfava e avermelhava cada vez mais. Ao retomar a leitura então acentuou o tom e pronunciou: 
"O resultado foi que Jesus era mesmo o maior e filho de Deus pois nem mesmo a crucificação deu certo porque ele ressuscitou. Não só ressuscitou mas não conseguiram pegá-lo mais pois também subiu aos céus. E desde então as pessoas continuaram escutando as idéias dele."
Finda a leitura da criminosa composição mamãe tratou de se recompor e tomar as rédeas da situação. Prometeu solenemente que se encarregaria pessoalmente da minha instrução católica. Desculpou-se o melhor possível tratando de alinhar os problemas pelos quais a sociedade passava e os preceitos da escola que era um marco em qualidade de educação e uma profusão de rituais patrióticos.
Querida mamãe que era outra cangaceira e havia parado no quarto período de biblioteconomia para criar seus bebês, mas sempre ali, na linha de trás dos que lutaram em silêncio, levando e trazendo cartas dos filhos tombados da Revolução.
Nessa noite em casa, tive que ler cuidadosamente a cartilha do catecismo, todas as páginas e repeti-las. Claro que ela guardou para contar a papai mais tarde, quando ele pode desvairar-se de rir, mas eu escutei.
Poucos anos depois, já adolescente, conhecia bem a diferença entre as coisas. Mesmo assim me lembrei dessa estória que terminava com Ele subindo aos céus mas as pessoas continuavam escutando as idéias dele. É que contemplava pela TV um avião subindo aos céus cheio de cabeludos e subversivos. Betinho, Henfil, Caetano, Chico e tantos outros. Ainda bem que eu me lembro das idéias deles e outras pessoas também continuarão lembrando.        


                                                                           Jussara Noronha


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Um comentário:

  1. Boa noite Parabéns pelo seu blog Gostei e me identifiquei bastante com toda esta pagina.Eu procuro alguma mulher,com conhecimentos do mundo Palestino,com quem eu possa ,quem sabe conversar.Sou brasileira,50 anos,universitária,etc e tal,e me preocupo com a Palestina,estou pesquisando tudo que posso a respeito(idioma,religiao,alimentação,costumes,tudo que consigo).Peço,se houver condiçao,entre em contato.De qquer forma,agradeço e deixo meu abraço.

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